Quem conta um conto, aumenta um ponto 1: Suicida

O conto a seguir foi feito por mim, sim, por mim, para a coletânia literária do ano passado da escola. Sei lá o que me deu, mas ele saiu. Leiam^^’
Terceiro post seguido, hein? =X

Suicida.

“Onde você poderia estar num dia como este?”

As palavras na carta saltavam aos meus olhos irritando-os como se fossem raios de sol. Onde eu poderia estar naquele momento?
    O pensamento de que daquele ponto não haveria mais volta passou como uma nuvem de chuva que estraga um dia ensolarado. Ironia. É, se eu soubesse mais poderia ter impedido aquilo tudo.
    Tudo a seu tempo.
    Não quero inundar-me de pensamentos de piedade sequer de arrependimento.
    Não me arrependo de nada que fiz.

Era uma manhã comum, cotidiano enfiado às forças por minha garganta até meu peito. Vesti-me, olhei pela janela, tomei café-da-manhã, trabalhei e ri, dentro do possível para quem trabalha numa funerária.

Sempre tratei dos mortos com cuidado. Vestia-os, pintava-os, trocava seu sangue por líquidos que conservavam o corpo, deitava-os em câmaras geladas para que os ingratos decompositores não putrefassem a carne antes da ultima festa do defunto. Vi as mais diversas formas de morte: infarto do miocárdio, câncer, derrame, assassinato, esquartejamento, hidroencefalia, afogamento, queda, parada cardíaca, homens, mulheres, crianças, animais, todo o tipo de coisa.

Mas nunca alguém que tivesse dado um tiro na própria cabeça.

            Era belíssima. Os olhos de vidro miravam o vazio, opacos, na sua cor castanho-tempestade. A pele morena adquirira uma misteriosa opacidade devido à morte e seus cabelos cobriam a maca em que foi trazida como ondas de um mar negro. O sangue já se fora, mas marcas secas marcavam seu vestido branco de defunta. O vácuo em seu cérebro não fazia diferença para mim. A ausência de vida em seu peito também não.

            Apaixonei-me.

            Uma pausa. Não quero que entendam que me encantei pela beleza post-mortem dela. É um fenômeno bastante comum. Como se depois de perder o sangue correndo em suas veias o corpo se tornasse mais bonito antes de ser podridão eterna. A expressão de alívio no rosto dela era tão sereno que talvez também quisesse aquilo para mim. Refletindo agora, talvez não fosse paixão. Talvez fosse inveja. Ou qualquer um desses sentimentos mesquinhos que não conseguimos distinguir. Mas a afeição que sentia por aquela defunta havia crescido em mim assustadoramente dentro das poucas horas em que cuidei dela.

            Já a havia visto algumas vezes ali, no meu trabalho. Havia perdido um filho, uma mãe, um marido. E agora tirara a própria vida. Enquanto viva, havia perdido também o caminho e a sanidade. Era minha vizinha, mas nunca havia dado a atenção que ela merecia.

            Voltei para casa, com o rosto dela no pensamento. O que a teria levado a fazer aquilo? Por que ela estava tão aliviada depois daquilo?  Não conseguia imaginar se aquilo poderia ou não resolver algo.

            Arrombei a casa dela. Revirei as gavetas, li as suas cartas, fiquei íntimo de seu pensamento. Dores, desejos, alegrias, tristezas, solidões. Como um antropófago, engolia os escritos dela como se fossem pra mim, como se ela me desejasse, como se ela sentisse a minha falta, como se precisasse de mim. Suas memórias eram minhas memórias, sua dor a minha dor.

            Nunca tinha me sentido tão completo na minha vida. Nem tão atordoado. Aqueles sofrimentos, aquela angústia, aquele ato desesperado por companhia. O último ato, o “Gran Finale”.

            “Que gostoso seria dar um tiro na cabeça em um dia ensolarado como este. Porque chego a sentir desgosto da minha insignificância…”

            Acabar com tudo, com um pequeno movimento do dedo. O estouro da pólvora, o movimento circular da bala, a entrada dela primeiro no couro cabeludo, depois rachando o crânio e em seguida acertando o cérebro. Alguns instantes até que haja o cessar das funções e o ultimo bater de coração. Última vez do sangue correndo pelas veias e pelas artérias, alimentando todo o corpo. Último suspiro. E finalmente, o reconhecimento.

“Eu quis você
E me perdi
Você não viu
E eu não senti”

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